Relacionamento com a comida: a compulsão
Eu já havia comentado que reservei um espaço para que outras pessoas pudessem circular livremente pelo Mini Size com suas histórias e depoimentos. escreveu um artigo muito interessante sobre compulsão alimentar e estou postando o texto aqui para partilhar mais uma experiência com quem visita este espaço periodicamente ou não. Boa leitura!
Os transtornos alimentares em geral pouco são debatidos pela imprensa em sociedade. Ultimamente houve um certo destaque para dois deles: Anorexia e Bulimia, sendo o segundo abordado em uma telenovela da Rede Globo. Ambos têm origem psicológica, assim como outro tão presente e grave quanto escassamente mencionado: a compulsão por comida. Penso que a compulsão é um transtorno tão grave quanto a Anorexia e a Bulimia e atinge uma faixa muito maior de pessoas no Brasil e no mundo. Pessoas podem engordar por diversos motivos e penso que a compulsão existe como um dos fatores chaves neste processo. Constante ou periodicamente boa parte da população pode apresentar as características de um comedor compulsivo que citarei a seguir.
A compulsão alimentar muitas vezes possui uma raiz psicológica relacionada a transtornos de ansiedade, aos problemas da afetividade e de auto-estima, tensão, sensações de infelicidade e fracasso e surge como uma forma de compensação individual. Não sou médica ou psicanalista, apenas desejo falar rapidamente a respeito do tema por perceber o quão ignorado ele tem sido ou, quando não ocorre isso, é visto como fenômeno bizarro e repulsivo comumente associado à imagem de obesos e obesos mórbidos. Contudo, não é preciso ser obeso para ser um comedor compulsivo. Pessoas magras ou acima do peso podem apresentar tal comportamento cujas manifestações são diversas e até mesmo sutis mas a principal delas é a perda de controle sobre a quantidade de comida ingerida. Gordo ou não, o compulsivo é estigmatizado socialmente. Além dessa há também a obsessão por dietas (não importa o peso), a culpa após o descontrole e a fixação por comida. O quadro pode se agravar e outras doenças surgirem tais como a depressão, ansiedade crônica, diabetes, dentre outras.
Quando a compulsão alimentar já está no estágio do descontrole, a pessoa se sente muito culpada por não ser forte o suficiente para comer menos. Os sentimentos de culpa, frustração e remorso fazem com que a pessoa se sinta muito mal e a baixa auto-estima possibilita, muitas vezes, o surgimento da depressão. A pessoa passa a acreditar que ela é aquilo o que pesa e não gosta do quanto está pesando. A balança torna-se a ditadora da felicidade. O que ela aponta determinará o céu ou o inferno do indivíduo. Dá-se, então, início ao ciclo interminável e insano: quanto mais se come, maior é a culpa e quanto mais culpado mais comida é ingerida.
Atos que podem identificar um compulsivo alimentar: comer secretamente, não perder nenhuma oportunidade de ficar sozinho em casa para se empanturrar, esconder as embalagens para ninguém descobrir que estava comendo, comer enorme quantidade de calorias no café da manhã, almoço e jantar e nada entre as refeições, comer no carro, no quarto, no banheiro, na garagem e no quintal, comprar pouca comida e ir freqüentemente ao supermercado, nunca contar as calorias quando está se empanturrando, sempre contar as calorias quando está de dieta, comer dois pedaços de torta e colocar adoçante artificial no cafezinho, comer pouquíssimo nas festas e se empanturrar ao chegar em casa, raspar a panela do brigadeiro ou a tigela do bolo, sempre experimentar a comida enquanto cozinha, “beliscar” enquanto está cozinhando, dar uma mordida aqui e outra ali e nem perceber o quanto já comeu, esconder comida nas gavetas e outros lugares secretos.
Com o avanço da compulsão, a pessoa passa a perder o interesse pela família, pelo trabalho, pelos amigos e por coisas que gostava de fazer para encontrar “prazer” apenas na comida. Alguns chegam a dizer: “eu vou morrer mesmo, então vou comer tudo o que quiser assim morro feliz”. Na verdade, o indivíduo já perdeu completamente o controle sobre a comida e só ele sabe o desespero que sente no fundo da alma por causa desse descontrole. A compulsão é uma doença que leva ao isolamento e ao desespero*.
Contudo há muito mais por trás disso. Estamos à mercê de indústrias potencialmente poderosas: a indústria para engordar e a indústria para emagrecer. O compulsivo oscila entre ambas na maior parte do tempo. As duas tiram proveito do descontrole e da culpa simultaneamente. E lucram muito com isso. São inúmeras armadilhas como as promoções para a compra de produtos extremamente calóricos por baixo preço, a dificuldade para encontrar a quantidade certa de um alimento, chocolate por exemplo (sim, os tabletes de 25 gramas estão quase em extinção), as substâncias viciantes encontradas em grande parte de produtos alimentícios industrializados, as propagandas apelativas, os padrões estéticos cultuados à exaustão. O interesse pelo bem-estar do ser humano desaparece aos poucos tragado por todo esse bombardeio.
Eu tive alguns problemas de compulsão alimentar ao longo da vida. Acredito que o passo inicial seja tentar compreender e levantar um histórico dos hábitos alimentares. O que está por trás da compulsão? Por que se comportar dessa forma? O que direciona a isso? Por que resistimos tanto às mudanças necessárias de atitude? Do que nos escondemos? Por que nos refugiamos na comida? As dietas para perda de peso nem sempre funcionam por tratarem apenas um sintoma, isto é, o excesso do peso. Ao tratarmos a origem, conseqüentemente haverá perda de peso. Para isso, é imprescindível o acompanhamento profissional de um nutricionista e um psicólogo. E principalmente, admitir e compreender as próprias atitudes compulsivas. Esse é o passo inicial: reconhecer a compulsão (se for o caso, óbvio) e sair em busca de seu bem-estar por si mesmo e não pelos outros (família, amigos, sociedade).
Existem grupos de ajuda ao compulsivo alimentar (Comedores compulsivos anônimos – ) espalhados em quase todo o território brasileiro e até mesmo reuniões online das quais qualquer pessoa que se identifique com tal comportamento e queira verdadeiramente mudar sua história pode participar.
As pessoas dispostas a mudar seus hábitos alimentares e atitudes viciosas ganharão saúde, disposição, e principalmente liberdade. Pensem que estar bem consigo próprio é o melhor dos presentes e a meta mais importante. O foco num emagrecimento realizado apenas para fins exclusivamente estéticos ou para alcançar X medidas talvez por vezes incompatíveis com o seu biotipo físico já possui, por si, um objetivo complexo (comigo pelo menos nunca funcionou uma vez que eu repudiava no íntimo esse tipo de coisa) e pode ocasionar mais frustração. Afinal você precisa encontrar sua identidade em sua própria imagem e não buscar a de outros. Se não está satisfeito, entenda o porquê e lute em favor de si próprio. Não faça do processo de emagrecimento uma neurose infinita. Encare a mudança com naturalidade e calma e junto com a saúde mental e física (isto sim é o mais importante) terá uma significativa melhora na auto-estima e aparência.
* As informações sobre o comportamento compulsivo foram retiradas de um resumo em português baseado na obra de Kay Sheppard Food addiction- The Body Knows e From the First Bite- a Complete Guide to Recovery From Food Addiction.



Subscribe to the
Leave a
Lika, partilho do teu mesmo olhar. A compulsão alimentar, para algumas pessoas, funciona como compensação para frustrações, problemas familiares, financeiros, baixa auto-estima, etc. As pessoas são diferentes entre si e reagem de maneira diferenciada em relação a problemas cotidianos. Umas descontam na comida, outras no trabalho, outras bebem, outras usam drogas, outras fazem uso de remédios controlados, etc. Cada um lida com sua dor da pior maneira possível, mas naqueles momentos a satisfação provisória vem a calhar. Eu sempre acreditei que ninguém tem o direito de dizer que seus problemas são maiores que o dos outros. Cada um sabe exatamente seus limites e suas dores. Há dois tipos de pessoas que me irritam profundamente: as que acreditam que, como eu já disse, seus problemas são os mais graves no mundo e aquelas que se posicionam como vítimas sempre.
Descontei por anos meus problemas na comida até cair na real que eu estava criando um problema tão grande quanto. Estou também aprendendo a notar o que são problemas reais e o que são aborrecimentos. É difícil é, mas a gente aprende.
Estou em uma fase meio perdida. Fiz escolhas erradas profissionalmente, mas preciso me reerguer. Este será o ponto central de minha vida: preciso me reerguer. Não posso ficar a vida inteira reclamando, achando que com isso os problemas serão resolvidos só pelo meu querer.
O problema da compulsão alimentar está sendo resolvido. É um processo. Lento, cheio de variações, mas saber que há três meses não desconto tudo na comida pra mim já é vitória.
Lika, muito obrigada pelo texto e este espaço sempre estará aberto pra vc.
Beijo
Jana.
1 said this (October 1, 2007 at 7:18 am)
Bom se é para falar de assuntos que a mídia não da importância, estamos falando do assunto errado, isso está por toda à parte! Eu estou a mais de meses procurando o meu problema e não acho uma virgula de nada!
Eu tenho um problema! Não gosto de comida e me farto só de sentir o cheiro, eu tenho complexo de ser magro, e gostaria muito de engordar, já tomei todos os remédios possíveis e imaginários, já tomei todos os tipos de anabolizante, até veterinário já tomei! E nada, já fiz dieta com carboidratos e proteínas, já tomei todos os shayks das melhores e das piores marcas. Já fiz musculação e tudo mais.
Tudo em vão… me torturei em vão porque não gosto de nenhuma destas coisas, não gosto de comer , malhar, nem de tomar remédios, muito menos de ter gastado todo esse dinheiro!
De tudo ainda me resta a ultima esperança! Dizem que quando você se casa você acaba engordando, mas ai é que ta! Eu não quero me casar, além de que, não me sinto atraente para ninguém, e não tiro a roupa nem na frente da minha mãe, nem mesmo a camiseta, quem diria de uma outra pessoa, com outras intenções.
Bom esse problema vêm de um tempo muito distante, já no colégio, nos jogos de futebol quando moleque, se eu caísse no time sem camisa, a partida já estaria encerrada nesse momento!
Com tudo veio a depressão e mais magreza, dezafirmando que os antidepressivos engordam pelo menos no meu caso…ufa.. Tem uma hora que todo mundo cansa…e eu estou cansado…vou fumar um cigarro dizem que ele inibe o apetite… que diferença faz?
Uma coisa é certa! Não a gordo que não emagreça com a redução de estomago! Devo aumentar o meu? rsrsrssr
2 sidnei néri said this (November 1, 2007 at 7:42 pm)
Sidnei, Espero que esta resposta apesar de atrasada chegue até vc. Li a o seu depoimento e parece que o mundo tem um sabor muito amargo para ser aceito e ingerido por vc, talvez por este motivo, vc nao consegue engolir, aquilo que vem de fora, do mundo. E ao mesmo tempo, vc nao consegue ter aceitação por vc. È preciso saber que historia de vida vc teve ou quais foram as suas impressoes sobre o mundo quando aqui chegou, com certeza isso tem influencia na sua maneira de viver e “engolir ” o mundo.
Já tive em meu consultório casos semelhantes ao seu, mas procure um psicólogo que possa te ajudar a descobrir a sua historia com a comida e reconstruir uma história saborosa e possivel de ser devorada. Boa Sorte!!!
3 Lucimaria said this (October 29, 2008 at 7:44 pm)
olá gostaria de compartilhar com vocês também a respeito desse trantorno sou estudante de nutrição mim formo no final do ano e o tema que escolhi para defender no meu trabalho de finalk de curso (monografia) foi transtorno da compulsão alimentar (TCAP), pois acho que é um transtono tanto quanto ou até mesmo mais grave do que a anorexia e a bulimia.
bejos fique com Deus
4 Elis Fernanda said this (May 5, 2009 at 5:19 pm)